Relevante

Se a vida não tem preço, nós comportamo-nos sempre como se alguma coisa ultrapassasse, em valor, a vida humana… Mas o quê? -Antoine de Saint-Exupéry

A-Lista-De-Schindler-Blu-rayJá disse aqui no Exalando a Alma o quanto gosto das histórias da Segunda Guerra Mundial. Já li vários livros a respeito e já assisti a vários filmes e séries de TV. Um dos livros que li se chama A Vida Em Tons De Cinza, da Ruta Sepetys, que é um romance histórico tomando por pano de fundo a situação dos lituânos levados para os Gulags na Sibéria. O booktrailer é tocante (se você clicar no link no nome do livro você encontrará o vídeo, recomendo que você assista), e retrata a luta, muitas vezes desumana, pela sobrevivência. Outro filme que me leva as lágrimas cada vez que assisto é a Lista de Schindler, que mostra de forma realista e visceral o sofrimento e a luta pela sobrevivência do povo judeu e de como um homem com força de vontade pode fazer a diferença e se colocar acima de um sistema cruel. Pelo que já li e estudei sei que a maioria do povo na Europa e Estados Unidos não estava se importando com a situação dos judeus. A importância e o impacto que o holocausto causa hoje não foi sentido naquele período, a não ser por aqueles que sofreram direta ou indiretamente com a matança feita pelas forças do eixo (que eram a Alemanha, Itália e Rússia). Mas o ponto a que quero chegar é exatamente qual a importância que damos hoje a vida? Assistindo a Lista de Schindler, uma das personagens diz “uma hora de vida ainda é vida”. Isso resume o apego que eles tinham ao que lhes restava, já que todos os bens e sua própria liberdade haviam sido tirados deles. Infelizmente, muitas vezes, só sabemos valorizar algo quando perdemos, e percebemos a importância que aquilo possuía em nossa vida. Ainda tem sido assim nos nossos dias. Buscamos ter ao invés de ser, buscamos o efêmero e fugidio ao perene. Qual a importância que temos dado a nossa vida? Gosto das histórias da Segunda Guerra porque além de mostrarem o que há de pior na humanidade, ela também conseguiu mostrar o que há de melhor, pois sim, sabemos ser nobres em face ao horror. Estas duas obras que citei mostram bem isso. Pessoas que levavam suas vidas, viviam suas rotinas até que de repente seus mundos foram assolados e seus alicerces destruídos, e não lhes sobrou outra opção a não ser lutar.

life-e1348973046829Eu já tive depressão. Não uma forte a ponto de precisar de remédios, mas uma amarga o suficiente para me fazer cogitar em dar fim a própria vida. Tive medo. A Morte não é algo ou alguém com quem devemos brincar, ela é velha demais para perder tempo nos dando chances. Tenho refletido muito sobre a importância da vida e do que posso fazer neste breve momento que estou aqui. Não tem sido fácil. Será que tenho valorizado as coisas certas? Será que tenho amado de forma satisfatória? Será que tenho vivido de forma correta? São muitos questionamentos e uma vida inteira para refletir sobre eles. O problema é que a vida não é tão longa para poder encontrar todas as respostas. Lutas, decepções, dificuldades, vicissitudes. São problemas que nos assolam constantemente e devemos estar preparados, pois viver é guerrear, e esta guerra não tem fim. Se nosso coração se despedaça o mundo não vai parar para que possamos remendá-lo. As pessoas que mais amamos muitas vezes são tiradas de nossas vidas num instante, não nos dando tempo de entender o que aconteceu. Há um mantra budista que diz “trate a todos com gentileza pois cada pessoa que você encontra enfrenta uma luta que você desconhece”. O que conhecemos por filosofia no ocidente, no oriente se chama de sabedoria por ter um cunho religioso por trás. Mas este é um fato. A história já nos presenteou com desgraças demais para simplesmente fazermos de conta que estamos seguros. Não estamos. O que tem sido relevante para você é o que realmente importa? Busque suas respostas, mas não perca tempo cogitando muitas coisas. Ninguém sabe quando será seu momento final, devemos estar todos preparados, pois como a Bíblia diz, a vida é um vapor, hoje existe e amanhã se esvai. Mas que possamos ser nobres, mesmo em face ao mal que nos rodeia, nós podemos sim. A história também tem nos presenteado com personagens ilustres e muitas vezes, anônimos, que souberam fazer a diferença, pois sabiam exatamente o que era relevante para eles. Homens que fizeram o que tinha de ser feito. Mulheres que se colocaram acima de sua dor. Não sei se tenho forças, mas posso ter esperança. E a minha esperança ninguém pode roubar de mim!

Necessidades…

amor-lc3adquidoAcabei de ler alguns estudos aqui na internet que falam do mal que a solidão pode trazer à vida das pessoas (Veja aqui e aqui). Há alguns meses li um livro chamado Amor Líquido, do Zygmunt Bauman (sou fascinado por este autor), cujo foco é a fragilidade dos relacionamentos nos dias atuais. Todos nós temos necessidades de relacionamentos, de estar com outras pessoas. Nós somos seres sociais e a ciência comprova o quanto a solidão pode ser nociva para o homem. Neste livro, Bauman fala sobre como é difícil manter relacionamentos, sobre os custos de se ter alguém na sua vida. É ótimo você ter um parceiro para os bons momentos, mas aturar os defeitos dos outros? É melhor não. O problema é que quando é nossa vez de errar, queremos alguém que nos suporte e nos entenda. Não queremos ser julgados, mesmo julgando a todo instante. Não queremos ser desprezados, mesmo não ligando para os tormentos dos outros. Não queremos ser incomodados mesmo necessitando muitas vezes da intervenção dos outros em nossas vidas. Meu Deus! A sociedade ocidental preza pelo fútil, pelo hedônico. Qual o propósito de se viver assim? O que aprenderemos deste jeito? Para onde correremos quando precisarmos de alguém? Eu não faço a menor ideia, só sei que cada dia que passa o mundo torna a existência mais sem graça. Muitos me criticam por pensar assim, mas quantos têm vivido a sombra da tristeza, do medo e da solidão e simplesmente não encontramos uma saída para estas pessoas. Eu mesmo tenho vivido assim. Não tenho uma visão positiva da existência. Não vejo motivo ou razão para existir. Não nos respeitamos, não respeitamos nosso meio ambiente, nosso planeta está morrendo, nossos recursos se exaurindo e a grande maioria só quer se sobressair em uma sociedade de consumo fútil, ignorante, líquida e por muitas vezes, desprezível. Já não sabemos, de fato, quem é nosso próximo. É mais fácil fechar os olhos, só que fazer de conta que não vemos os problemas não irá resolvê-los.

incógnitaÉ muito difícil resolver nossas necessidades primordiais quando estas dizem respeito às pessoas. Quero entender por que queremos tanto sem ter muito para dar em troca. Sei que eu mesmo sou falho em muitos aspectos que critico, é claro que tenho teto de vidro então, preciso direcionar minhas críticas primeiramente a mim. Mas até para estender a mão a alguém fica difícil, pois confiança é algo complicado. Muitos já foram tão feridos, tão humilhados por confiar que preferem se trancar em seu mundo e fazer de conta que são capazes de se virar sozinhos. Mas noite após noite seus medos e angústias as atormentam, e seus travesseiros são meros depositários de lágrimas. Ainda tem a preocupação com o futuro. Quanta incerteza para uma vida! Muitas vezes me pego pensando em meu futuro, na vida que gostaria de ter, no que posso fazer para mudar e nas dificuldades que posso enfrentar, e geralmente termino meus pensamentos me questionando se pelo menos vou terminar este dia ou se meu último suspiro está mais próximo do que imagino. Sair de casa para mim é uma luta, tenho medo. Encarar a vida já é motivo de medo suficiente. Mas o fato é que temos que encará-la. Não posso permitir que os pensamentos me derrubem. Faço um exercício mental que, apesar de parecer simples é muito difícil. Tento por na minha cabeça a ideia de que viver um dia de cada vez é suficiente. Tento entender que a vida dá voltas e que eu não sei como vou estar no futuro. Tento perceber que não há nada de mal acontecendo comigo no momento e que não tenho motivos para me preocupar. Olho a comida na despensa, as contas pagas, olho para os céus e tento agradecer a Deus por poder andar, respirar, ter uma casa para morar. Tento fazer isso como forma de sobreviver ao caos que é a vida. Não é algo que faço a muito tempo, na verdade comecei a mudar de atitude há alguns dias. Espero que tenha resultado, pois só me resta esperar que Deus faça um milagre, ou tudo será em vão…

Desabafo

angustia2Ah! A tristeza… Poderia ser um sentimento mais pessoal, mas infelizmente não é. Gustave  Flaubert dizia que a tristeza é um vício. E um vício mal compreendido. Muitos tentam apagar este vício com outros. Jogos, bebidas, drogas, sexo. Mas quando nos encaramos lá está o sentimento de novo a nos apertar o peito. E a sangrar e sangrar até que não reste mais nada a fazer a não ser se entregar ao vício da tristeza. Alguns dependem de tomar ansiolíticos, mas com certeza ela estará lá de novo encarando-os com seu olhar frio quando nenhum comprimido for mais capaz de subjugá-la. Estes dias têm sido de constante ansiedade para mim. Choro por dentro porque já não há mais o que chorar por fora. Quero desistir de tudo, mas ao mesmo tempo quero ter esperança de que tudo vai mudar. Meu Deus! Ah! Se ao menos algo fosse certo nesta vida além da morte. Se ao menos houvesse uma próxima para ter a chance de fazer tudo direito. Mas meu peito lateja dia após dia, noite após noite. Hoje foi um dia que gostaria de pular, mas a vida é uma escola da qual não podemos fugir. De um jeito ou de outro, da forma mais dolorida ela nos ensina suas lições. Alguns soldados antes de ir para a guerra são ensinados e se verem mortos, caso contrário eles não entrarão em batalha. Eu deveria ter sido ensinado a me ver assim mais cedo. Depois de um tempo fica difícil de assimilarmos tudo o que deveríamos. Deus, cansei de lamento. Se o Senhor realmente se importa, faça alguma coisa por mim, porque eu já não tenho mais ânimo. Se não houver mais o que fazer, me mata, é melhor que viver assim! Essa vida é uma inimiga poderosa e eu não vejo mais como me aliar a ela. Eu estou me afogando em lamentos e não vejo ninguém capaz de estender a mão. Cansei meus recursos, humanos são gélidos, assim como a vida que me cerca. Quisera haver outra chance, mas a vida não perdoa! E eu, só queria fugir disso tudo…

Roda Gigante

clamor-angustiaFalar de nossos medos para psicologia é algo positivo, já que você se livra daquilo que lhe sufoca, lhe deixa tenso. Mas infelizmente nem todos temos acesso a um psicólogo, e para as demais pessoas aturar os problemas dos outros é motivo suficiente para manter distância, o que pode nos deixar frustrados. Esse é o motivo de muitas pessoas vestirem uma capa de felicidade mas no fundo de suas almas estarem amarguradas e presas a um peso dentro de si muitas vezes insuportável. Deveras tenho me sentido assim. São momentos em que ora estamos bem, ora estamos mal, e essas variações ocorrem diversas vezes não ao longo dos meses ou dos dias, mas várias vezes dentro de um dia, diuturnamente. Medos são caçadores exímios e sanguinolentos, e se não formos presas astutas seremos massacrados. Várias vezes aqui no Exalando a Alma tratei de medos, daqueles que eram, que são, e dos que podem vir e ainda daqueles iminentes. Não apenas medo, mas dualidades, no meu caso entre o cristianismo e a homossexualidade. Um dos medos que mais me afligem é o medo da morte. Sei que é tolice temer a morte, definitivamente não há como evitá-la. Começamos a morrer no momento em que nascemos e, para mim, este é o grande paradoxo da vida. Outro medo que tenho é não entender o por quê de existir. A existência do tudo, do universo, da vida, do cosmo me intriga muito. Por que existe algo ao invés do nada? Absolutamente ninguém tem resposta. Por que alguns tem tanto na vida e outros padecem horrorosamente? Por que empatia se tornou um item raríssimo e luxuosíssimo em nossa sociedade? São muitos os questionamentos que carrego dentro de mim e sei que não sou o único. Hoje tem sido difícil me sentir bem. Meus dias se resumem a pensar no meu futuro, a tentar fazer algo para mudá-lo e simplesmente não obter êxito nenhum. Lassidão levou-me a ser um procrastinador compulsivo. O medo me levou à paralisia. Já tive depressão, é um poço fundo. Não sei como saí dele, mas não me afastei deste poço. Ainda caminho nas suas bordas e, apesar de balançar muitas vezes, tenho conseguido manter-me equilibrado.

dsc09850Para mim a melhor parte do dia é quando chega a noite e consigo dormir. Dormir e esquecer que existe uma vida cheia de dificuldades a serem superadas. Não me julgue caro leitor, não estou apenas lamentando. Eu tento. Acordo todos os dias, estudo, procuro emprego, respiro fundo, sorrio mesmo sem motivos. Mas quando tenho que encarar meus sentimentos eles pesam. Às vezes estou no alto da roda gigante e vislumbro um horizonte tão belo, mas logo ela desce e encaro um vale de lágrimas. Rodas gigantes se movem sem sair do lugar e sei que muitos estão presos a uma. Muitos como eu estão cheios de questionamentos, buscando respostas enquanto outros já desistiram e esperam apenas o fim desejando que ele não seja tão amargo e doloroso. Outros mantém a esperança que tudo mudará e outros trabalham para mudar tudo. Eu apenas me encontro no limiar das opções. Para quem aprendeu a controlar seus medos é fácil dar uma resposta. É muito fácil encontrar a solução. Mas soluções não caem prontas, muitas vezes precisam ser fabricadas, precisamos descobrir as ferramentas certas, a técnica menos agressiva. Além dos temores que descrevi, há o dualismo que vivo. Acredito em Deus, acredito na Bíblia, mas já não acredito que há solução para o que vivo. Queria poder assumir logo que sou homossexual, mas ainda tenho muito a perder. Queria poder dizer meu nome verdadeiro neste blog e estampar minha foto e simplesmente dizer “este sou eu”, mas o preço é alto demais e não tenho como pagar. Tenho um verdadeiro trauma de evangélicos. Hoje para mim eles representam o que tem de pior na humanidade ocidental. Claro que há exceções, mas são poucas. Queria realmente obter ajuda para meus dilemas. Não quero respostas niilistas, de pessoas que simplesmente desprezam aquilo que tenho dentro de mim. Então muitas vezes só me resta o silêncio. E com o silêncio vem o sufocar da alma. O que fazer? Eu não sei. Hoje estou novamente desconexo… Perdi a linha por causa das lágrimas que me turvam a visão. Estou começando a aceitar que a vida não deve ser vivida em busca de compreensão, mas de aceitação. O difícil é aceitar aquilo que levo comigo. Seja como for, ainda quero acreditar que enquanto há vida há esperança, mesmo que ela pareça distante. Se eu não perecer, quero acreditar que um dia a alcançarei…

Cacos

espelho quebradoA vida às vezes parece ter apenas rasteiras pra nos oferecer. Muitas vidas parecem ser apenas soma de medos, tristezas e desesperança. Não sei se isso é só uma fase, mas deve, com certeza, ser um grande aprendizado, pois não creio que seja possível ou aceitável passar por tanta dor sem um propósito. Autoconhecimento é a perda da inocência. Uma vez perdida a inocência, não há desculpa fácil de se dar ou ouvir. Oxalá pudéssemos ser capazes de fazer escolhas sensatas 100% das vezes que nos fosse demandado, mas infelizmente isto não é possível, e as más escolhas são regadas com lágrimas e seus frutos são amargos. Choro por dentro. Tenho medo. Sinto o terror. Minha única válvula de escape é dormir e entrar no estado de subconsciência. Esquecer um momento que a vida lá fora é real, que os medos vão me consumir mais um dia. Ah! E a solidão? Essa companheira indesejável e inexorável, nada indulgente. Como driblar? Não sei. A solidão tem se tornado um lugar comum para a humanidade. O grande gênio da atualidade, Zygmunt Bauman já dizia que hoje indivíduos solitários se encontram na ágora com outros indivíduos solitários e voltam para casa com sua solidão reforçada. Perdemos a capacidade de amar, e com isso muitos outros males foram suscitados.

3021962_gQ6beSou um homem solitário. Entendo o que é solidão, esse demônio que rasga nossa alma, que nos angustia, e nos mata lentamente. Sou um homem de temores. Sei o que é olhar pra frente e ver apenas um borrão, uma mancha. Sou um homem de tristezas, de sentir aquela mão apertando o peito, espremendo lágrimas, me fazendo sangrar. Sou um homem de desesperanças. Me apego ao fato de que, de um jeito ou de outro, tudo vai acabar. Me lamento de saber que entre o começo e o fim pouco foi proveitoso. O que é a vida senão um momento? O que fazer deste momento que é a vida? Alguns encontram seu caminho, outros morrem tentando e muitos, como eu, desistiram de tentar. Sei que com 32 anos sou uma pessoa nova, sei que estou vivo e posso tentar. Mas na prática é muito difícil. A vida é selvagem. A vida se alimenta da vida, e apenas morte nos espera no fim da jornada. Quisera poder abreviar esta passagem sem dor, mas é mister sofrer. Tenho sorte de ter nascido num país ocidental em um Estado de direito. Não quero ofender a Deus, mas seu eu soubesse de tudo que sei, e tivesse escolha, escolheria não nascer.  Sim meus amigos, este é um dos mais amargos lamentos que posto aqui no Exalando a Alma. Se você tem algo prático capaz de me ajudar, não hesite. Se não tem, lembre de mim em suas orações. E que Deus tenha piedade desta pobre alma…

Farsante

magoasSou cristão apesar de não frequentar igreja. Fui criado em uma igreja evangélica e frequentei esta igreja até os meus 28 anos, logo, conheço por dentro este movimento e suas doutrinas que, apesar de variações, têm uma mesma base, que são os ensinos de Cristo. Ser um bom cristão é muito difícil pois, ao passo que você não deve julgar os outros e tem o dever moral de amar e ajudar seu próximo, você também não pode ser conivente com os erros deles para não acabar sendo cúmplice do pecado do seu próximo. Um dos pecados que a Bíblia diz que não tem perdão (são dois), é exatamente a falta de perdão (Evangelho de Mateus cap. 6 versos 14 e 15). Eu, sendo cristão, não sou perfeito, erro e erro muito. Mas eu tento reconhecer meus erros e tento pedir perdão àquelas pessoas que magoo. Mas o que eu observo é que no meio evangélico o perdão é um bem de consumo luxuosíssimo e extremamente caro. Eu faço de tudo para não guardar rancor (não sou hipócrita, sei que tenho muitos rancores, principalmente contra o sistema em que fui criado), mas tento perdoar as pessoas. Pode não parecer, mas tenho um coração mole; quando alguém me pede perdão eu não hesito, perdoo mesmo. Só que nem todos são como eu. Eu tinha um amigo, uma boa pessoa, a quem eu causei algumas feridas de forma involuntária. Ele é evangélico. Me afastei dele em 2010, esperei a poeira baixar e recentemente o procurei apenas para pedir perdão. Me arrependi de tê-lo feito. Às vezes é melhor deixar o estrago feito e seguir a vida. Sei que não tenho moral para criticá-lo, eu, na minha inocência, lhe causei alguns males, mas fiquei imaginando de que adianta professar uma fé cujas bases são negligenciadas? Eu fui atrás do perdão porque quero ele, preciso de um palimpsesto na minha consciência. Infelizmente na minha vivência com os evangélicos sei que este meu ex-amigo faz parte da regra e não da exceção. Mas não posso julgá-lo. Não sei se o meu veredicto foi merecido, mas foi dolorido. Há meandros da história que são desconhecidos por nós dois. Fico imaginando como uma amizade, a única que tive na vida, começou tão bem e acabou tão mal? Creio que a minha solidão criou necessidades em mim e eu cobrei do outro quando eu, e apenas eu, deveria ser o responsável por suprí-las. Eu me sinto um cristão farsante, pois quero do outro o que muitas vezes eu não tenho para passar em frente. Mas há um crime em querer perdão, amor e compreensão? Creio que todos buscamos isso alguma vez em alguém, não sou o único. Seja como for, a ferida foi aberta em ambos, e o único remédio nos é negado.

Sobre minha homossexualidade

Não importa o horror e a repulsa com que recordamos ou evocamos os preços pagos e as perdas sofridas no passado – as perdas suportadas hoje e os preços a serem pagos amanhã são os que mais incomodam e magoam. -Zygmunt Bauman

Cura-da-HomossexualidadeÉ sabido que conforme o tempo vai passado vamos ganhando um pouco mais de sabedoria e experiências, boas ou más, que de alguma forma vão nos marcar e nos deixar mais tolerantes a certas situações na vida. Mas tolerância não é aceitação. No jargão do grupo LGBT sou um gay discreto, já que não assumi publicamente minha homossexualidade. Não sei se este comportamento seria duramente criticado pela comunidade homossexual, já que hoje vemos uma verdadeira batalha pela aceitação da comunidade LGBT pela sociedade e, apesar de não apoiar seus meios acho o fim válido, mas existem muitas barreiras para que eu possa assumir que sou gay. Sei de dois fatos: sou gay e não quero ser. Para os desinformados ser gay é uma escolha e, francamente, acho uma estupidez faraônica achar que alguém acorda um dia e decide ser gay. Nunca conheci um que tenha escolhido ser. A sociedade tem lutado para mudar seus paradigmas e aceitar a comunidade, mas me pergunto, e aqueles que, como eu, não querem ser gay? O que fazer? Definitivamente a comunidade LGBT não aceita tal proposição, é ofensiva. Ao longo da minha vida tentei negar este lado, principalmente durante a adolescência. Sempre fui tachado de viadinho, bichinha, maricota e outros adjetivos ofensivos e, sinceramente, nunca fui capaz de me aceitar neste quadro. Apesar de estar em um relacionamento com um rapaz maravilhoso, sinto que não é o que quero para mim. Mas eu não consigo sentir atração por mulheres então a vida tem sido um grande dilema. E eu odeio dilemas. Toda escolha traz suas consequências e francamente, não sei se me disponho a pagar o preço. Às vezes me critico em relação a isso, pois sei que não tenho escolha. Neutralidade não é uma opção. As poucas opções que a vida nos dá geralmente requerem um preço muito alto, e não nos deixa confortáveis em relação a elas. Escolhas importantes são difíceis, requerem muitas vezes lágrimas e muito sangue frio para vencer os medos. Eu admiro aqueles que foram capazes de assumir sua homossexualidade e encontraram um caminho para ser feliz. Mas não sejamos tolos, há uma grande parcela que se esconde através de uma vida de máscaras por medo da família, dos amigos e do seu contexto social. Apesar dos esforços para se combater o preconceito, há um longo caminho para se percorrer até que este seja vencido, se é que será um dia.

gay_kissPara completar meu dilema, meu maior medo ainda é enfrentar minha família. Minha mãe sabe da minha homossexualidade, mas ela acredita que não me envolvo com ninguém e ainda tem sonhos de me ver casado e com filhos. Muitos poderiam me dizer para enfrentar a situação de vez, mas não é tão simples. Minha família é evangélica e católica tradicional. Apesar de ter homossexuais assumidos na minha família, sei que não receberei o mesmo tratamento que eles. E quando falo sobre minha homossexualidade me vem a mente os abusos sofridos na minha vida, principalmente aqueles por parte de meu pai. Ele nunca chegou a ter relações sexuais comigo, mas ele me tocava constantemente, até como chantagem para eu poder conseguir alguma coisa. Depois, na adolescência, começaram abusos morais. As mudanças no meu corpo eram motivos de comentários espúrios constantes. Passei muita vergonha na presença dele, morria de medo dele descobrir que eu era gay. Logo que tive acesso a Internet em 1997, descobri este mundo de uma forma mais ampla. Tornei-me um voyeur. Com o advento da banda larga, passei a frequentar constantemente salas de bate-papo com vídeo para ver outros rapazes nus, muitas vezes se masturbando e cada vez mais meu deleite aumentava. Até que em um momento criei coragem e parti para a busca de um parceiro. Não vou negar, sexo é muito bom. Mas francamente, não me faz feliz. Odeio alegrias momentâneas. Elas mais parecem maldição que algo a ser de fato celebrado. Devido a forma como fui tratado pelo meu pai, hoje tenho uma obsessão pelo órgão masculino. Confesso, a visão de um pênis muito me deleita. Mas também me angustia. É algo totalmente ambivalente. Não quero acreditar que empurrar a vida com a barriga seja a melhor solução, pois eu acredito que enquanto há vida há esperança. O caminho mais difícil é achar o caminho certo para mim. A felicidade é relativa, uns se contentam com muito, outros com pouco, e eu estou em cima do muro, pois, ora quero o mundo, ora quero fugir dele. Não aceito a minha homossexualidade, não posso me abrir sobre ela e não sei o que fazer a respeito. Mas como dizia Freud, cada um tem que achar seu caminho. Ouvir opiniões é perigoso, pois cada um nos oferece uma visão diferente e isso nos trás mais confusão que solução. Seja como for, quero manter a esperança que acharei meu caminho, seja ele qual for. E que Deus me ajude.