O polonês Arthur Poznanski, de quatorze anos, voltava do gueto de Piotrków, num dia de outubro de 1942, vindo da fábrica de vidros Hortensja, onde ele e o irmão mais novo, Jerzyk, trabalhavam, quando um membro da milícia judaica do gueto lhe entregou um bilhete amassado. O recado vinha de sua mãe. Houvera uma deportação: “Estamos sendo levados. Que Deus o ajude, Arthur. Não podemos fazer coisa alguma por você, e, aconteça o que acontecer, cuide de Jerzyk. Ele é apenas uma criança e não tem outra pessoa no mundo, por isso seja seu irmão e seu pai. Adeus (…)” Arthur, comovido, repetia para si mesmo: “Vou tentar! Sim, vou tentar!” Ao mesmo tempo pensava: “Como? Sentia-me tão só e desamparado.” Os meninos passaram o restante da guerra em campos de concentração, separados por centenas de quilômetros, mas, milagrosamente, ambos sobreviveram; os outros membros da família morreram.

band_of_brothers_shotEu sou um apaixonado pelas histórias da Segunda Guerra Mundial, porque elas sempre me lembram o que há de pior e também o que há de melhor no ser humano, e de como uma simples ideia fixa pode levar um homem a loucura. Tenho lido alguns livros e visto alguns filmes acerca do tema. Para mim, o melhor filme que vi até agora foi “O Ditador”, de Charles Chaplin. O relato acima foi tirado do livro Inferno: o mundo em guerra 1939-1945, e me chama atenção pois, há um tempo li uma frase que dizia mais ou menos que muitas pessoas são fortes porque é a única opção que elas têm. Exatamente o que o relato, dentre muitos que constam no livro, nos mostra. Alguém, mais alguém em meio a tantos, tendo que ser forte pois não há outra opção. Uma das obras que também me chama a atenção é o seriado Band of Brothers, cuja história é baseada em relatos reais de veteranos de guerra. Ali também se vê como as dificuldades podem fazer um ser humano se tornar tão nobre em face ao horror. Às vezes a vida se compara a uma foto. Antigamente você precisava mergulhar um filme (negativo) em uma solução (problema) para poder revelar a foto (positivo). Assim somos nós; fotos nada mais são do que lembranças. Aí me questiono: que lembranças temos revelado ao mundo? Estamos realmente sendo revelados ou ficamos apenas no negativo? A verdade é que a vida sempre tem algo a nos ensinar, mas é preciso uma boa dose de ousadia e disposição para aprender. Infelizmente a história da humanidade tem caminhado para uma crise que parece irreversível. Quisera todos nós tivéssemos pequenas epifanias diárias, alimentaríamos nossa alma e jamais nos sentiríamos fracos. Mas é tempo de crise, e há pessoas morrendo de fome em uma terra de plenitude, enquanto outras se fartam em terras escassas.

flor13A verdade é que todos estamos em guerra, diariamente, constante-mente. Nosso campo de batalha não é a Normandia, ou o Pacífico, ou o interior da Rússia, como na segunda guerra, mas em um campo muito mais inóspito: a mente. Todos os dias precisamos levantar e buscar esperança e uma razão para viver. Alguns conseguem facilmente, pois, ainda que de aparência, vivem uma vida perfeita. Outros precisam enfrentar o medo que ninguém mais entende, o desânimo que não faz sentido, o aperto no coração que esmaga qualquer resquício de força que exista. Há a guerra da mãe que vê seu filho morrendo, do pai que perdeu o emprego, dos filhos que ficaram sozinhos no mundo, a cada dia crianças, adolescentes, jovens e velhos enfrenta guerras além da nossa compreensão, pois muitas vezes somos incapazes de compartilhar nosso melhor em face ao pior momento de outrem. Mas há esperança. Há sim, aqueles que se dedicam a estender a mão e demonstrar sim que tudo pode mudar. Eu mesmo já encontrei alguém que, nos meus momentos de tristeza, angústia e solidão soube me dizer palavras para aliviar o sofrimento. A maioria das pessoas não se importa, é verdade, mas a esperança não pode morrer. A minha, por mais que eu esqueça dela, não morreu, pois sei que tudo nesta vida passa. Não há cova tão profunda que não possa ser escalada, e não há deserto tão árido que não possa reter o minimo de vida. As crianças do relato de abertura desta postagem perderam tudo, seus pais foram deportados, eles foram enviados a campos de contração. Mas ninguém lhes tirou a vida, e enquanto há vida há esperança. De todos os livros que eu li sobre a Segunda Guerra Mundial, eu pude aprender uma lição: a vida sempre nos dá oportunidades de recomeçar. A guerra acabou, tiranos caíram, o preço foi alto, mas o mundo aprendeu uma lição: sempre há esperança!…

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