Você tem de estar disposto a admitir que não possui todas as respostas. Do contrário, jamais terá alguma coisa importante para dizer. –Paul Auster

Eu admiro a dor. Ela exige ser honrada. Não há medo mais básico do que o medo de uma dor  constante e sem fim. –Nicolas Wieder em, ‘Achei que meu pai fosse Deus’.

Palimpsesto é uma palavra grega que significa literalmente “raspado novamente” e remete a era dos pergaminhos. Pergaminhos nada mais eram que peles de animais utilizados para confecção de livros antigos, criado na cidade grega de Pérgamo. Esta cidade almejou ter uma biblioteca maior que a de Alexandria, mas devido a falta de materiais para escrever seus livros era necessário muitas vezes a prática do palimpsesto, ou seja, raspar os pergaminhos para que pudessem ser escritos novamente. Poetas e pensadores consideram a vida como um livro sendo escrito a todo instante. Muitas histórias, muitos roteiros de cinema, muitos erros e muitos acertos. Assim é a vida e a minha não poderia ser diferente. Minha história tem sido escrita com muitos erros e alguns acertos. Depois de situações que me levaram onde não queria nem deveria chegar senti Deus me dando uma segunda chance. Deus fez um palimpsesto em mim e me deu a chance de reescrever uma nova história. Claro que a marca da antiga ficará lá, mas que seja um marco para eu não esquecer de onde vim. Estou escrevendo na madrugada do último dia do mês de agosto. Já passa da meia noite e quantas lições o mês que passou me deixou. Precisei de muita coragem para atravessá-lo. Fatos marcaram-me profundamente. Senti dor e ainda estou confuso, mas não posso largar a pena.

De maio para cá experimentei coisas em minha vida que jamais imaginei experimentar, do medo a euforia, da dor ao prazer, da solidão a paixão, mas como diria o saudoso José Saramago a única coisa que dura na vida é a própria vida, o resto e fugidio. Minha luta contra a homossexualidade, ou melhor, contra os efeitos da homossexualidade não terminou, e não acredito que terminará algum dia, mas tomei a decisão que não quero isto para mim. Dói profundamente ter que desistir de alguém que se ama, mas depois de dar de cara com o fim da linha e ter tido a chance de retornar, não posso mais brincar de aventureiro. Ainda tenho muito o que entender. Particularmente não gosto do desconhecido, ainda mais se depois de explorá-lo tanto eu não conseguir desvendar nada a respeito dele. Hoje mais uma vez vi um acontecimento que me deixou alerta do quanto esta vida é frágil. Não são muitos que têm uma segunda chance. Muito se diz sobre o arrependimento de nossos erros e, se você realmente quer reescrever uma história você precisa abandonar sua vivência antiga e recomeçar uma nova caminhada. Mas não posso ser hipócrita, não consigo me arrepender do que vivi, dos momentos que passei ao lado do meu ex-companheiro e isso me tortura.

Quero e necessito deixar meu passado exatamente no lugar que lhe é devido, ou seja, para trás de mim. Infelizmente o preconceito impede as pessoas de verem o obvio. Não há muito o que fazer a não ser tomar decisões e segui-las custe o que custar! A ambiguidade dos sentimentos é deveras sofrível e todo este viés nulifica a razão no momento em que ela mais se faz necessária, principalmente a alguém passional como eu. Mas a dor é o adubo que faz florescer nossa maturidade, não há como escapar deste fato. Quisera eu ter amigos presentes nestas horas. Justiça seja feita, tenho encontrado pessoas maravilhosas que têm me ajudado bastante, algumas pessoas que sequer me viram pessoalmente, têm sido um canal de Deus para minha vida. A Bíblia diz em Romanos 13:7 “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra.” Não citarei nomes para não ser ingrato esquecendo de alguém e também para preservar estas pessoas, já que não sei se elas me permitiriam citá-las aqui, mas se estiverem lendo quero que saibam que têm toda minha gratidão e minhas orações. É tempo de reescrever uma nova história. Preciso prometer a mim mesmo pelo menos tentar não cometer os mesmos erros. A caminhada segue, sei que depende de mim, mas que Deus me ajude!

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