É como se os nossos medos tivessem ganhado a capacidade de se autoperpetuar e se autofortalecer; como se tivesse adquirido um ímpeto próprio – e pudessem continuar crescendo unicamente com base nos seus próprios recursos. –Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida

Entender o que passa conosco é uma tarefa complicada. Nós erramos, acertamos, praiaerramos de novo, tentamos acertar, erramos, tentamos consertar as coisas, alguns desistem outros esperam e outros continuam tentando (e errando, diga-se de passagem). Acho que sou uma mixórdia disso tudo. Hoje parei para analisar alguns acontecimentos da minha vida em que eu veementemente culpei os outros e, de verdade, senti vergonha de mim mesmo ao descobrir que fui o único culpado, algumas destas coisas até relatadas aqui no blog. Nossa, e como sempre, tenho um espírito irrequieto que tenta consertar aquilo que foi escangalhado, mas como é difícil lidar com as pessoas. Perdão custa caro demais, algumas vezes o preço é simplesmente impagável. Isso me entristece pois tenho consciência que todos erramos e todos queremos uma segunda chance, mas são pouco que estão dispostos a nos dar essa segunda chance. Muitas vezes, situações nos deixam com medo de tentar, e o medo só cresce, o tempo passa e quando se olha para trás percebe-se que poderíamos ter feito algo, mas simplesmente deixamos passar e ai vem o sentimento de fracasso, os questionamentos e tudo o mais.

Sei que não sou perfeito, sou um cara que teme muita coisa, me falta poesia para imagesver a vida com outros olhos e sobram julgamentos por não ser o paradigma aceitável de um homem do século XXI. Tenho medo constante e crescente de cometer os mesmos erros do passado, sei que mudei muito, mas tenho uma natureza e esta não me deixa em paz, incomoda constantemente. Maturidade é uma árvore que demora a crescer e requer cuidados especiais, muitas vezes é regada com lágrimas e adubada com muita vergonha, mas espero poder provar seus frutos e espero que sejam doces. Por estes dias me surpreendi quando alguém que sei que magoei muito me procurou, mas a frieza com que fui tratado me fez questionar se valeu a pena ter sido procurado (confesso que fui atrás algumas vezes). Sim, senti um fracassozinho pinicando meu ego por não ser capaz de lidar com meus sentimentos e com os sentimentos alheios… Odeio criar expectativas, mas não consigo evitar. A esta altura da vida já deveria ter aprendido a lidar melhor com as pessoas. Sinto vergonha de quem fui um dia. Acho que ainda sinto vergonha de quem sou. A vergonha é um sinal que carregamos para sempre. Alguns se habituam, outros a sentem latejar.

Talvez seja simplesmente inútil parar um momento para escrever sobre estes tristezatemores, escrever sobre meus fracassos, já que muitos consideram isto uma perda de tempo, e deveríamos simplesmente celebrar a beleza da vida blá, blá, blá, mas eu sei que a vida é cheia de vicissitudes, e nem só de beleza se vive, já que o que mais nos ensina a viver é a dor. A dor é a melhor professora que teremos, a melhor amiga, para alguns (reconheço que não é meu caso) ela é a única. Mas aqueles que sentem a dor sem medo são os seres humanos mais nobres que encontraremos. Talvez eu celebre minhas dores um dia, sentindo orgulho de cada ferida de batalha, assim como um soldado que, apesar das marcas, sabe que seu sofrimento foi para um bem maior. Quem sabe este dia venha a raiar amanhã mesmo. Até lá, só posso continuar tentando aprender a viver, já que não me dou a opção de sucumbir. Que venham os fracassos, eles não são os únicos galardões!

 

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