Não importa o horror e a repulsa com que recordamos ou evocamos os preços pagos e as perdas sofridas no passado – as perdas suportadas hoje e os preços a serem pagos amanhã são os que mais incomodam e magoam. -Zygmunt Bauman

Cura-da-HomossexualidadeÉ sabido que conforme o tempo vai passado vamos ganhando um pouco mais de sabedoria e experiências, boas ou más, que de alguma forma vão nos marcar e nos deixar mais tolerantes a certas situações na vida. Mas tolerância não é aceitação. No jargão do grupo LGBT sou um gay discreto, já que não assumi publicamente minha homossexualidade. Não sei se este comportamento seria duramente criticado pela comunidade homossexual, já que hoje vemos uma verdadeira batalha pela aceitação da comunidade LGBT pela sociedade e, apesar de não apoiar seus meios acho o fim válido, mas existem muitas barreiras para que eu possa assumir que sou gay. Sei de dois fatos: sou gay e não quero ser. Para os desinformados ser gay é uma escolha e, francamente, acho uma estupidez faraônica achar que alguém acorda um dia e decide ser gay. Nunca conheci um que tenha escolhido ser. A sociedade tem lutado para mudar seus paradigmas e aceitar a comunidade, mas me pergunto, e aqueles que, como eu, não querem ser gay? O que fazer? Definitivamente a comunidade LGBT não aceita tal proposição, é ofensiva. Ao longo da minha vida tentei negar este lado, principalmente durante a adolescência. Sempre fui tachado de viadinho, bichinha, maricota e outros adjetivos ofensivos e, sinceramente, nunca fui capaz de me aceitar neste quadro. Apesar de estar em um relacionamento com um rapaz maravilhoso, sinto que não é o que quero para mim. Mas eu não consigo sentir atração por mulheres então a vida tem sido um grande dilema. E eu odeio dilemas. Toda escolha traz suas consequências e francamente, não sei se me disponho a pagar o preço. Às vezes me critico em relação a isso, pois sei que não tenho escolha. Neutralidade não é uma opção. As poucas opções que a vida nos dá geralmente requerem um preço muito alto, e não nos deixa confortáveis em relação a elas. Escolhas importantes são difíceis, requerem muitas vezes lágrimas e muito sangue frio para vencer os medos. Eu admiro aqueles que foram capazes de assumir sua homossexualidade e encontraram um caminho para ser feliz. Mas não sejamos tolos, há uma grande parcela que se esconde através de uma vida de máscaras por medo da família, dos amigos e do seu contexto social. Apesar dos esforços para se combater o preconceito, há um longo caminho para se percorrer até que este seja vencido, se é que será um dia.

gay_kissPara completar meu dilema, meu maior medo ainda é enfrentar minha família. Minha mãe sabe da minha homossexualidade, mas ela acredita que não me envolvo com ninguém e ainda tem sonhos de me ver casado e com filhos. Muitos poderiam me dizer para enfrentar a situação de vez, mas não é tão simples. Minha família é evangélica e católica tradicional. Apesar de ter homossexuais assumidos na minha família, sei que não receberei o mesmo tratamento que eles. E quando falo sobre minha homossexualidade me vem a mente os abusos sofridos na minha vida, principalmente aqueles por parte de meu pai. Ele nunca chegou a ter relações sexuais comigo, mas ele me tocava constantemente, até como chantagem para eu poder conseguir alguma coisa. Depois, na adolescência, começaram abusos morais. As mudanças no meu corpo eram motivos de comentários espúrios constantes. Passei muita vergonha na presença dele, morria de medo dele descobrir que eu era gay. Logo que tive acesso a Internet em 1997, descobri este mundo de uma forma mais ampla. Tornei-me um voyeur. Com o advento da banda larga, passei a frequentar constantemente salas de bate-papo com vídeo para ver outros rapazes nus, muitas vezes se masturbando e cada vez mais meu deleite aumentava. Até que em um momento criei coragem e parti para a busca de um parceiro. Não vou negar, sexo é muito bom. Mas francamente, não me faz feliz. Odeio alegrias momentâneas. Elas mais parecem maldição que algo a ser de fato celebrado. Devido a forma como fui tratado pelo meu pai, hoje tenho uma obsessão pelo órgão masculino. Confesso, a visão de um pênis muito me deleita. Mas também me angustia. É algo totalmente ambivalente. Não quero acreditar que empurrar a vida com a barriga seja a melhor solução, pois eu acredito que enquanto há vida há esperança. O caminho mais difícil é achar o caminho certo para mim. A felicidade é relativa, uns se contentam com muito, outros com pouco, e eu estou em cima do muro, pois, ora quero o mundo, ora quero fugir dele. Não aceito a minha homossexualidade, não posso me abrir sobre ela e não sei o que fazer a respeito. Mas como dizia Freud, cada um tem que achar seu caminho. Ouvir opiniões é perigoso, pois cada um nos oferece uma visão diferente e isso nos trás mais confusão que solução. Seja como for, quero manter a esperança que acharei meu caminho, seja ele qual for. E que Deus me ajude.

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