20100306_MG_3628-950x633A morte e o sofrimento nos faz refletir muitas coisas a respeito das nossas vidas. Viver é sofrer, já dizia o poeta, e sobreviver é encontrar sentido no sofrimento. Às vezes temos oportunidades de lavar a alma e nem sempre conseguimos. Já expus várias vezes aqui no Exalando a Alma todas as angústias que sofri na vida em relação ao meu pai. Meu pai já morreu, e antes disso lutou por anos contra uma doença incurável. Sofri na época da morte dele, há nove anos, mas o tempo foi passando e o sofrimento foi se tornando alívio. Meu pai não sabia que eu era gay. Minha mãe sabe, pois contei a ela, apesar dela ignorar o fato, talvez seja mais fácil pra ela lidar com isso. O que nunca contei aqui no Blog é que antes do meu pai morrer ele passou um período internado no hospital, cerca de dois meses, e na semana em que ele morreu ele entrou em coma. Senti vontade de chegar no ouvido dele enquanto ele estava em coma e dizer a ele tudo que sentia. Muitas vezes tive um diálogo na minha cabeça das palavras que gostaria de ter dito a ele, cada uma delas. Contar que era gay, que aprendi a ter obsessão por pênis por culpa dele, que me sentia deprimido e mal por causa das coisas que ele me dizia, que me sentia infeliz pela forma como ele me tratava, que achava o amor dele falso, que ele nunca tinha sido meu amigo, e que se eu fosse pro inferno era pra ele me esperar lá. Queria dizer o quanto pensei em morrer por não suportar minha vida, em como achava insuportável fingir ser quem eu não era pra agradar a comunidade religiosa da qual fazíamos parte. Queria deixar ele desesperado e sentir minha alma lavada com a dor dele. Mas claro que não fiz. E confesso que há dias que me sinto feliz por não ter feito, mas têm dias em que me arrependo e acho injusto ele ter partido dessa vida sem conhecer o monstro que ele criou. Não queria viver com a tristeza de saber que minha inocência foi queimada pela ignorância e lascívia daquele homem e não acredito que ele fazia tal coisa por pura brincadeira. Não se toca um criança sem ter muita maldade no coração. Vivo uma guerra doentia dentro de mim para não reproduzir com outros o que ele fez comigo. Eu vivo ansioso, apavorado, tenho medo do julgamento divino, me sinto preso, acorrentado, queria gritar tudo que se passou comigo pro mundo inteiro ouvir mas infelizmente tenho que sufocar nesse paroxismo interior porque seria julgado e no fim das contas ninguém ligaria mesmo. A minha rotina consiste em acordar e colocar uma capa de aparente felicidade enquanto estou morto por dentro. Canso de sorrir por fora e sangrar por dentro; canso de dizer que estou bem mas no fundo estou amargurado. E o que mais me cansa nisso tudo é não ter quem me ajude. Não tenho esperança de ser feliz algum dia. Minha alma está rasgada, meu corpo padece e não sei o que fazer da minha vida. Essa é a pior crueldade, viver sem esperanças…

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